Joseph Jagger
Um homem dos têxteis do Yorkshire, rodas que favoreciam alguns números e uma história impressa pela primeira vez com vinte anos de atraso.

Joseph Hobson Jagger (1830–1892), um empresário têxtil dos arredores de Bradford, terá ganho cerca de £80 000 em Monte Carlo por volta de 1880, mandando registar as rodas e apostando nos números que saíam vezes demais. Não sobrevive nenhum jornal nem registo do casino que mencione o ganho. A história assenta num livro de 1901, na tradição familiar e numa chave comemorativa datada de 1884.
O que mostram os documentos
Joseph Hobson Jagger nasceu a 2 de setembro de 1830 em Shelf, entre Bradford e Halifax. Casou com Matilda Townend aos vinte anos e tiveram quatro filhos. Trabalhou toda a vida no comércio de tecidos: como empregado de armazém, como sócio de uma oficina que engomava fio de teia, como acabador de tecidos em Manchester. O censo de 1861 chama-lhe agente de algodão e de tecidos de lã e o seu testamento de 1881, fabricante. Nenhum documento lhe chama engenheiro. Essa palavra, e “mecânico”, vêm dos livros sobre Monte Carlo.
Em abril de 1860 o seu negócio de Manchester faliu, e a London Gazette incluiu-o entre os devedores insolventes a ouvir no castelo de Lancaster. O filho mais novo tinha dois anos. A sua biógrafa Anne Fletcher, sua sobrinha-trineta e historiadora do património, encontrou os avisos e encontrou a família ainda a pagar dívidas quinze anos depois. Não encontrou nenhuma falência em 1880 ou 1881, embora vários jornais tenham desde então situado uma nesses anos.
A história tal como foi impressa pela primeira vez
O relato mais antigo é Monte Carlo Anecdotes and Systems of Play (1901), de Victor Bethell. Bethell chama-lhe “Jaggers”, um homem do Yorkshire e mecânico de ofício, e não dá nome próprio nem ano. Na sua versão, Jaggers contratou seis escriturários, sentou-os em mesas diferentes para anotarem todos os números o dia inteiro e, ao fim de um mês, tinha encontrado um ponto fraco em cada roda. Ele e os seus homens ganharam £120 000. O casino começou a mudar as rodas de mesa para mesa todas as noites, e Jaggers distinguia-as por pequenas marcas, um risco ou uma pinta na tinta. Perdeu £40 000 dos ganhos e saiu com cerca de £80 000, o que, aos 25 francos por libra da época, são dois milhões de francos. A única data de Bethell é que tudo isto aconteceu “há mais de vinte anos”.
Bethell escrevia duas décadas depois dos acontecimentos e não nomeia nenhuma testemunha. Fletcher pesquisou a imprensa local, nacional e estrangeira e não encontrou nenhuma notícia do ganho, e quando o pai dela escreveu ao casino responderam-lhe que os papéis desse período tinham sido destruídos.
Como a história cresceu
Cada autor posterior acrescentou alguma coisa, e esses acréscimos são o que a maioria das pessoas conhece.
Quando lá esteve
Fletcher data a primeira visita de 1880 ou 1881 a partir de quatro indícios. Jagger falta na sua própria casa no censo de abril de 1881, onde a mulher aparece como chefe de família. Uma escritura de agosto de 1881 dá-o como morador no n.º 6 de Greaves Street, Bradford, uma casa que comprou nesse ano, e em outubro fez o testamento de um homem com bens. O quarto é o único objeto que sobrevive, uma chave comemorativa num estojo de oferta, guardada na família. A inscrição, dos seus “amigos e admiradores”, fala do seu êxito na roleta contra a banca em Monte Carlo “ao longo de um período de quatro anos” e tem a data de 1 de maio de 1884.
Fletcher lê isto como várias estadas entre cerca de 1880 e 1884, não uma única semana. Quanto tempo observou, e quanto tempo jogou, não está registado em parte nenhuma.
Quem foi com ele
Os seis escriturários de Bethell não têm qualquer apoio, e Fletcher nota que a sala tinha então apenas quatro ou cinco mesas de roleta. Uma tradição familiar, posta por escrito por um amigo que tinha visto cartas entretanto destruídas, diz que o filho mais velho, Alfred, foi com ele. Fletcher acrescenta um sobrinho, Oates Jagger, maquinista de locomotivas, com base na sua riqueza posterior e inexplicada; é uma inferência dela. Outro ramo da família sempre disse que ele foi com o seu capataz. O dinheiro para a viagem foi pedido emprestado a parentes, de um dos quais, um primo, consta que foi reembolsado.
O que o casino fez
Também aqui Bethell é a primeira fonte. Diz que o casino começou por trocar as rodas de mesa para mesa todas as noites e, quando isso falhou, mandou um homem à casa de Paris que as fabricava. A casa construiu um novo conjunto de rodas com separadores móveis, de modo que um compartimentoequipamentoCompartimentoUma das 37 divisões numeradas do rotor. Também: célula, alvéolo.Ler tudo → que num dia ficava em frente ao zerorodaZeroO único compartimento verde, que nenhuma aposta simples, dúzia ou coluna cobre; a origem da vantagem da casa. Também: zero único, 0.Ler tudo → podia ficar noutro sítio no dia seguinte. Polovtsoff, que presidiu ao International Sporting Club de Monte Carlo na década de 1930, diz o mesmo: rodas novas com peças intermutáveis, baralhadas diariamente. As rodas antigas foram substituídas, não reparadas.
A verificação matinal de cada roda com um nível de bolha está bem atestada. Adolphe Smith assistiu a ela por volta de 1912 e Polovtsoff descreve-a em 1937. Nenhum dos dois diz que começou com Jagger, e nenhum documento do casino liga qualquer destas medidas a ele.
Que tamanho tem de ter um viés
Um plenoapostaPlenoUm único número, paga 35:1.Ler tudo → paga 35 para 1, por isso um número tem de ganhar mais do que uma vez em 36 lançamentos para que uma aposta nele renda alguma coisa. Numa roda equilibrada de zero único ganha uma vez em 37.
Suponha-se que os escriturários tinham registado uma roda durante um mês, a 500 lançamentos por dia: 15 000 lançamentos. Um número equilibrado sairia cerca de 405 vezes, mais ou menos 20. Um número que saísse 465 vezes estaria três desses “mais ou menos” à frente, o que a sorte sozinha quase nunca produz. Um número assim ganha cerca de uma vez em 32 lançamentos, e uma aposta nele rende 11,6%: 36 fichasdinheiroFichaUma peça que representa um montante fixo, colocada no pano para fazer uma aposta. Também: cheque.Ler tudo → de volta por cada 32,3 apostadas. Um mês de contagem paciente chega para encontrar um defeito desse tamanho e é pouco para encontrar um muito menor. Os 500 lançamentos por dia são uma hipótese para a conta; ninguém registou a que ritmo andavam aquelas mesas.
Depois
Jagger não comprou uma mansão. Em 1881 comprou o n.º 6 de Greaves Street, em Little Horton, Bradford, e ao longo dos dez anos seguintes, mais coisa menos coisa, pelas contas de Fletcher, pelo menos trinta e duas casas em banda ali perto, arrendadas ou habitadas por parentes. Ela crê que deu cerca de um terço do dinheiro aos dois homens que foram com ele. Não há sinal de que alguma vez tenha tornado público o ganho. Morreu no n.º 25 de Greaves Street a 25 de abril de 1892, aos 61 anos; a certidão de óbito indica diabetes. Está sepultado na Bethel Chapel, em Shelf, perto de onde nasceu. O valor líquido da sua herança foi de £1710.
A canção
“The Man Who Broke the Bank at Monte Carlo” foi cantada pela primeira vez em 1892, o ano em que Jagger morreu, e a família acreditou durante muito tempo que era sobre ele. Não era. Fred Gilbert escreveu-a depois da série de ganhos de Charles Wells em 1891, que encheu os jornais (ver O homem que fez saltar a banca). Charles Kingston disse o mesmo em 1925: a honra coube ao burlão que veio depois do homem do Yorkshire.
Perguntas
Provavelmente ganhou uma quantia grande: a chave da família, de 1884, a sua súbita compra de imóveis e o relato de Bethell apontam todos nesse sentido. As quantias, os seis escriturários e os nove números não podem ser confirmados.
Fletcher diz apenas que alguns genealogistas sugeriram uma ligação distante. Não foi publicada nenhuma genealogia.
A sua herança foi de £1710 líquidas. Nessa altura, segundo Fletcher, o dinheiro tinha ido para casas e para ofertas à família.
Pausa cómica

O ganho deixou uma chave e uma fila de casas. Os pormenores vieram depois.
Fontes
- Fletcher, A. From the Mill to Monte Carlo.
- Fletcher, A. “The true story of the man who broke the Monte Carlo bank: Joseph Hobson Jagger.”
- Bethell, V. Monte Carlo Anecdotes and Systems of Play.
- Kingston, C. The Romance of Monte Carlo.
- Polovtsoff, P. Monte Carlo Casino.
- Smith, A. Monaco and Monte Carlo.
- Quinn, R. The Man Who Broke the Bank at Monte Carlo.